OURINHOS — Norival Vieira da Silva conta que jornais da cidade sobreviviam devido às ligações políticas; UDN, por exemplo, fundou o “Diário da Sorocabana”
Aurélio Alonso
Da Editoria Regional
Há 9 anos o professor de história Norival Vieira da Silva apresenta a “Crônica da Cidade” pela rádio Clube de Ourinhos, por volta do meio-dia. É um espaço dedicado à memória do município. Em 10 minutos de programa, de improviso e na base da memória, Silva retrata desde o humilde cidadão ao mais destacado político. É uma maneira singela de manter viva a história oral, sem compromisso com data e rigor científico.
Filho de um ex-prefeito de Santa Cruz do Rio Pardo — Tertuliano Vieira (1935-1936) —, Norival se destacou no magistério na escola Horácio Soares, numa época em que a escola pública tinha qualidade de ensino reconhecida. Lecionou na faculdade de Direito de Jacarezinho (PR), foi diretor das Faculdades Integradas de Ourinhos (FIO), ajudou a elaborar o processo que possibilitou a instalação da Fatec no município e sempre gostou de escrever em jornais.
Conheceu de perto a ascensão de políticos e jornais que marcaram a história de Ourinhos. O “Diário da Sorocabana” foi um deles, mas passou pelas redações da “Voz do Povo”, “Correio de Notícias” e incentivou a criação de jornais nas escolas estaduais.
Norival é do tempo que a imprensa tinha vinculação partidária, jornalistas tinham mordomias de não pagar imposto de renda e até desconto para viajar de avião. Foi professor de José Carlos Maranhão e Jefferson Del Rios, dois jornalistas conhecidos nacionalmente, que tiveram o primeiro contato com imprensa nos jornais estudantis produzidos na escola. Na última quarta-feira, o professor contou ao DEBATE como atuavam os primeiros jornais de Ourinhos e lembrou da importância da Fatec (Faculdade de Tecnologia) e da Unesp no progresso do município.
DEBATE – Ourinhos no passado teve uma imprensa muito forte. O senhor ajudou a fundar o “Diário da Sorocabana”. Como era a imprensa nesse período?
Norival Vieira da Silva — A imprensa local nasceu ligada à política. O grupo da União Democrática Nacional (UDN), cujos líderes eram o Sylvestre Ferraz Igreja e Abreu Sodré (foi governador do estado), articulou um núcleo político em Ourinhos. Na verdade, queriam atingir uma classe social mais elevada e por isso resolveram fundar um jornal, mas de linha udenista. O interesse de ter um órgão de imprensa aumentou depois de o diretório regional de São Paulo reservar uma vaga para lançar um candidato a deputado federal pela região de Ourinhos. Eles formaram uma sociedade. Aliás, meu irmão mais velho, o Nelson, foi sócio, cuja empresa era dividida por cotas. Quem dirigiu o jornal no início foi Enio Prodoscimi. O Duilio Sândano, udenista antigo, foi do conselho administrativo. O jornal começou a funcionar na rua Euclides da Cunha, onde depois foi o “Jornal da Divisa”, próximo da agência dos Correios. Foi um bom semanário que funcionou contando com bons colaboradores, um estilo de imprensa bem próprio da época. Não me esqueço dos debates que a gente travava com o Luiz Anhaia Leite, Franciso de Paula Júnior — conhecido por “padre” Chico, professor de latim de Salto Grande. Havia polêmica num tom jocoso, mas se discutia política.
DEBATE – O senhor falou em estilo da época. O que seria?
Norival — A política daquela época era diferente da de hoje. Havia muita fidelidade partidária, não se podia pensar na hipótese de um militante da UDN sair do partido e ir para o PSD, adversário ferrenho. Não acontecia troca de partido como nos tempos atuais. Por eu ser professor no Instituto de Educação Horácio Soares, fiz parte do jornal. No início não fui diretor-responsável, não tinha carteira de jornalista, só consegui o documento em 1956. Naquele tempo jornalista tinha algumas mordomias: não pagava imposto de renda e tinha desconto de 50% na compra de passagens aéreas. Não viajava de ônibus para São Paulo naquele tempo, só ia de avião pela Vasp. Depois, aboliu-se esses privilégios.
DEBATE – Qual foi o primeiro jornal do município?
Norival — O primeiro jornal foi a “Cidade de Ourinhos” em 1926. No primeiro ano de circulação da “Voz do Povo” consta saudação ao ‘colega’ que completa um ano de existência. A publicação pertencia a Cândido Barbosa Filho, conhecido por “Barbosinha”, coletor de imposto e inspetor de escola, homem rígido e sério. Foi excelente prefeito, administrou muito bem a cidade. Mesmo com pouca receita conseguiu colocar paralelepípedo em todas as ruas. E “Barbosinha” foi eleito quatro anos depois? Não! O povo tem disso... Nessa época surge Domingos Camerlingo Caló, um dos grandes líderes políticos de Ourinhos. Participei de um comício de apoio a “Barbosinha”, na segunda eleição, na praça Melo Peixoto, em que só compareceram vinte ou trinta pessoas. Falamos sem ânimo nenhum. Mas o Ferraz de Brito tinha muita força, ele trouxe grandes políticos para Ourinhos: Juraci Magalhães, Carlos Lacerda... Eles visitavam Ourinhos.
DEBATE – É uma característica dessa época os jornais terem ligação com partidos políticos?
Norival — Sem dúvida nenhuma. Vou mexer num vespeiro: a “Folha de Ourinhos” foi fundada com o fim político de ajudar a candidatura do Domingos Camerlingo Caló. Era contra o “Correio de Notícias”. O Sylvestre Ferraz Egreja criou coragem de transformar o “Diário da Sorocabana” em diário. Tinha equipamento muito bom para a época. Não me esqueço daquele sistema de caixa tipográfica. Para compor os textos tinha que pegar as letras uma a uma. Gostava de passar na oficina por volta da 1 hora para paginar o jornal: “Abre aí cinco colunas... abre três colunas”. Aquilo era um prazer enorme. Foi quando contrataram o Salvador Fernandes, jornalista profissional que trabalhava na “Folha de S.Paulo” e foi chefe de gabinete do presidente da Assembléia Legislativa, o Roberto de Abreu Sodré. Devido a essa amizade, Salvador veio para trabalhar na fazenda de Ferraz Egreja. A primeira casa que o Salvador almoçou em Ourinhos foi a minha. No início tocamos juntos o “Diário da Sorocabana”, ele como diretor-responsável, por ser jornalista profissional — naquele tempo era rigorosa a regulamentação da profissão — e eu redator. Depois, me afastei do jornal. Quando cheguei em Ourinhos comecei a trabalhar na imprensa, mas não vim para ser professor. Tinha pretensão de estudar no Colégio Rio Branco para seguir carreira de diplomata. O Dr. João Batista Medeiros foi em casa e me levou para o Instituto Educacional de Ourinhos — onde hoje é o Horácio Soares. Ele me segurou praticamente naquela escola. O Orlando Azevedo, dono da “A Voz do Povo”, me convidou para ser redator do jornal. Ele me mandava a notícia e eu redigia. Para minha surpresa, no quinto mês me pagaram o primeiro salário de jornalista.
DEBATE – Naquela época, o jornal tinha muitos leitores? A população lia o jornal?
Norival — Sim, lia. A “Voz do Povo”, por exemplo, tinha estilo diferente. Doei a coleção completa para a Unesp-Ourinhos. Achei mais seguro para a preservação da história do município. Tenho certeza que está em boas mãos. Em cidade que tem campus, a Unesp preserva os arquivos. Em Assis, por exemplo, tem um arquivo — tanto escrito quanto falado com gravações de pessoas — que é extraordinário. O estilo daquele jornal era divulgar todo tipo de fato, mesmo o mais simples da comunidade. O fulano viajou para São Paulo, nasceu o fulano de tal, foi batizado... Isso atraia o povo, todos queriam ler o “A Voz do Povo”. A vida da cidade estava todinha ali. Ela funcionou até 1957, quando encerrou as atividades, sob comando dos irmãos Azevedo. No começo quem dirigia era o patriarca da família, Joaquim Azevedo, que escrevia num estilo gostoso. A “Voz do Povo” retratava bem a mentalidade daquele época. O último que tomou conta do jornal foi o Colombo Azevedo.
DEBATE — A “Voz do Povo” foi o principal jornal daquela época? A revisão era muito boa?
Norival — Eu não via quase erro de imprensa, troca de palavras. Ao folhear exemplares antigos da “A Voz do Povo”, não sei como conseguiam naquela época ter tanta qualidade. Os errinhos de imprensa são normais em jornais, mas na “Voz” não. O jornal era feito com carinho.
DEBATE — O senhor, com toda a experiência que tem, viu nascer “A Voz do Povo”, depois vivenciou os agitados anos 50 e 60 — período da UDN — época dos jornais partidarizados. O senhor continuou escrevendo nas décadas de 70 e 80. É possível fazer um paralelo da imprensa depois desse período? Como o senhor avalia a dificuldade de se manter os jornais?
Norival – A mentalidade do povo do interior não valoriza os jornais. As empresas não fazem publicidade para mantê-los financeiramente. É um sacrifício enorme tocar jornal nos tempos atuais. Naquela época, devido à influência política, era mais fácil. Sempre algum político sustentava as publicações. Por exemplo, o “Correio de Notícias” existiu por causa do Sylvestre Ferraz Igreja. Sem ele, não teria existido. Ele gostava daquele jornal. Criei um jornal chamado “Tribuna Escolar”, distribuído de graça em todos os colégios estaduais. Fazíamos na gráfica do “Correio”. Mas não se compara o jornal daquele período com a imprensa atual.
DEBATE— O senhor teve alunos que depois foram jornalistas profissionais conhecidos na mídia nacional. O Jefferson Del Rios, que escrevia em jornal estudantil, foi crítico de teatro, correspondente da “Folha” em Portugal. Marão foi editor da Quatro Rodas...
Norival – Eu sempre tive muita ligação com os alunos, por isso incentivava a criação de jornais nas escolas. Principalmente no Horácio Soares, onde fui professor. O “Jornal dos Estudantes” foi o mais famoso. Eu incentivava, assinava como diretor-responsável, mas quem fazia o jornal era o aluno. Isso na década de 50. Quando fui para o “Correio de Notícias”, criei o cargo de repórter e dava uma carteirinha aos estudantes que faziam reportagem para o jornal. O Salvador Fernandes também fez isso quando cedeu meia página para os estudantes do Horácio Soares no “Diário da Sorocabana”. O Irineu Luiz da Palma conseguiu provar no INSS seu tempo de aposentadoria graças a uma dessas carteirinhas. Fui chamado para reconhecer minha assinatura e declarar que realmente ele trabalhava como repórter no jornal. Ele ganhou dois anos de aposentadoria com essa carteirinha. Outros que deram os primeiros passos em jornais estudantis foi José Carlos Marão — diretor durante sete anos da “Quatro Rodas” e “Realidade” —, Roberto Pelegrino, tradutor na Editora Abril, Jefferson Del Rios, entre outros. A atuação no jornalzinho escolar foi o início de uma profissão.
DEBATE – O senhor, como professor aposentado, se assusta ao ver essa queda de qualidade na escola pública?
Norival – A queda de qualidade é um fato que entristece todo mundo. Não há como comparar a escola pública das décadas de 50 e 70 com as de hoje. Uns atribuem à mentalidade atual do jovem. Dizem que é difícil ser professor nesses tempos de modernidade, mas atribuo à falta de apoio do governo ao ensino público. A verba ao ensino ainda é pequena.
DEBATE – O senhor teve participação importante para trazer uma unidade da Fatec para o município. É defensor da Unesp na cidade. Ourinhos está experimentando um crescimento populacional, o município está se desenvolvendo, embora o PIB municipal seja inferior a Santa Cruz do Rio Pardo. O senhor teve participação nas Faculdades Integradas de Ourinhos (FIO), da qual foi diretor por muito tempo.Como vê esse crescimento de cursos superiores na cidade? O senhor acredita que Ourinhos vai crescer devido a essa expansão de cursos superiores?
Norival – Não só acho como tenho certeza. Por exemplo: quando era prefeito Clóvis Chiaradia e Adelhaid Chiaradia, secretária de Educação, me procuraram para ajudá-los a trazer uma unidade da Fatec para o município. Ele me disseram: “Olha, professor, nós queremos que o senhor monte um processo para trazer a Fatec”. Na fundação Paula Souza havia um superintendente interessado em dar um presente para Ourinhos. Fui conversar com o Pedro Álvaro e montei um processo de 250 páginas em pouco mais de um mês. Foi aprovada a primeira escola pública de ensino superior para Ourinhos. Desde o início, a Fatec contratou bons professores. Não me esqueço quando veio a comissão da Fatec visitar o local. O terreno ficava no meio de um pasto. Não havia nada, só se avistava a cidade. Um dos membros comentou: “Mas não está muito longe da cidade?” O tempo se encarregou de demonstrar que não. A cidade desenvolveu para as imediações da Fatec. A instituição vai muito bem. Não é porque ajudei a montar o processo de instalação da faculdade, mas conheço a escola — lecionei lá por seis meses. É um ambiente extraordinário! Eu me lembro de uma frase, de uma moça de Adamantina: “Ah, professor! Se essa escola fosse na minha cidade, seria cercada por um jardim”. Quer dizer, ela reconhecia o valor da Fatec em Ourinhos. Depois veio a Unesp. Foi uma luta danada, mas, felizmente, já tem um campus. Os alunos vieram à minha casa, porque tenho um material muito grande relacionado à história de Ourinhos em meu computador. Eles me procuram porque a área de geografia está ligada à história. São moços de cabeça madura, estudam o dia inteiro. Quando não estão em aula, estudam em casa. Imagina: no ano passado nós tínhamos na cidade 138 alunos de fora. Veja o que traz isso para Ourinhos! Houve aquela ameaça de não fazer vestibular, mas felizmente foi resolvido, saiu o prédio. É só o começo, sem dúvida nenhuma. Veja só o que aconteceu em Assis, onde a cidade ficou famosa por causa da Unesp. O mesmo acontece em Rio Claro, Botucatu, Bauru. Com a Fatec ocorre a mesma coisa. É escola de alto nível. Em Jaú, há curso de navegação fluvial. Os formados têm bons empregos na área de navegação. São necessários cursos noturnos, porque nem todo mundo pode passar o dia estudando, por depender de emprego. Mas dá para notar a diferença do aluno de período integral e do período noturno. Um grupo de alunos queria conhecer a colônia japonesa. Eu os levei às principais granjas que ainda restam no município, ligada a japoneses. Estão fazendo um trabalho extraordinário sobre imigração, não só da colônia japonesa, mas de tudo. Houve pesquisa bem feita de um rapaz sobre a influência econômica que a Unesp trouxe para a cidade.